Nova Lei da Ficha Limpa pode afetar inelegibilidade de políticos condenados

Política

Texto aprovado no Senado reduz impacto da punição, mas especialistas apontam que Jair Bolsonaro não deve ser beneficiado pelas mudanças

Enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) julga processos envolvendo Jair Bolsonaro (PL), o Senado aprovou nesta terça-feira (2) um projeto que flexibiliza a Lei da Ficha Limpa, criada em 2010. O texto, que ainda precisa de sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), altera o tempo e a forma de contagem da inelegibilidade, estabelecendo novas regras que podem reduzir o período de afastamento de políticos condenados.

O projeto de lei complementar nº 192/2023 foi aprovado por 50 votos a 24 e prevê que o prazo de oito anos de inelegibilidade passe a contar a partir da condenação, renúncia, cassação ou eleição com abuso constatado — e não mais somente após o fim do mandato ou do cumprimento da pena. Outra mudança é a criação de um teto: mesmo em casos de múltiplas condenações, a punição não poderá ultrapassar 12 anos.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), defendeu a proposta, afirmando que a intenção é “modernizar” a lei:
“A inelegibilidade não pode ser eterna. Está no texto da lei oito anos, não pode ser nove nem vinte”, disse.

Parlamentares contrários, porém, argumentam que a medida enfraquece a Lei da Ficha Limpa. Para Marcelo Castro (MDB-PI), a alteração descaracteriza o espírito original da norma:
“Com essa lei, ninguém mais ficará por duas eleições fora do pleito, o que considero uma anomalia”, afirmou.

Bolsonaro segue inelegível até 2030
O ex-presidente Jair Bolsonaro foi declarado inelegível em 2023 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, após reunião com embaixadores em que atacou o sistema eleitoral. A condenação impede sua candidatura até 2030.

Embora a flexibilização da Lei da Ficha Limpa beneficie parte dos políticos condenados, uma emenda do senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) excluiu a possibilidade de aplicação no caso de Bolsonaro. Portanto, mesmo com a aprovação da nova redação, ele permanece inelegível.

Além disso, Bolsonaro e aliados respondem no STF por crimes graves, como organização criminosa, golpe de Estado, dano ao patrimônio público e tentativa de abolição do Estado democrático de direito. Caso condenado, o prazo de inelegibilidade poderia se estender ainda mais, já que, nesses crimes, a contagem de oito anos só começa após o cumprimento da pena — que, no caso dele, pode chegar a mais de 40 anos.

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